Uma China, mil traduções
Dora Ribeiro, Poetisa e Embaixatriz do Brasil em Pequim
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A Universidade Qinghua comemorou recentemente com grande pompa os seus 100 anos. Ainda que não possa ostentar o título de mais antiga da China (que cabe à Universidade de Nanjing fundada em 258 a.C. e formalmente denominada universidade em 1888), a Qinghua é considerada hoje uma das melhores do país. Embora dispute com a Universidade de Beijing o primeiro posto do ranking das universidades chinesas nas avaliações internacionais, ainda não alcança, contudo, um lugar entre as 50 melhores do mundo como acontece com a sua ‘adversária’.
Esta situação talvez fosse por si só suficiente para alimentar as ambições da Qinghua de se transformar numa instituição de topo a nível global. Porém devemos nos lembrar de um estímulo ainda maior para a instituição: ela concentra os seus esforços justamente nas áreas de ciência e engenharia; duas vertentes fundamentais para a China nas próximas décadas. Como bem lembrou o seu ilustre ex-aluno, o presidente Hu Jintao, no discurso comemorativo, «a educação é um elemento fundamental para o desenvolvimento rápido e saudável da economia e sociedade chinesas». Por isso é provável que nos próximos anos sejamos testemunhas de grandes novidades vindas dessa universidade.
Mas realmente interessante é a história dessa instituição e o seu percurso até chegar a ser um dos principais centros de saber na China. A sua fundação se deu na sequência do processo de indenizações a que o país ficou obrigado a pagar com o fim da Rebelião Boxer (1898-1901). Os países ocidentais envolvidos no confronto receberam do império Qing uma reparação financeira; entre eles os EUA que, por terem conseguido mais do que haviam pedido, foram intimados a devolver a quantia recebida a mais. Depois de muita negociação, os americanos decidiram, em 1907, usar o dinheiro para bolsas de estudo para chineses. Em 1909 o programa foi criado e, em 1911, estabelecido um colégio preparatório para os alunos que seguiriam os seus estudos na América. Somente em 1928, o colégio passaria a universidade.
Entre 1909 e 1929 o Colégio Qinghua enviou aproximadamente 1300 alunos para universidades americanas. Mesmo nascida de uma situação pouco favorável, a instituição e as bolsas de estudo foram instrumentos importantes para o desenvolvimento da ciência. Yang Zhening, Nobel de Física em 1957, e o matemático Chung Kai-lai são dois exemplos importantes dessas contribuições.
Postado em: 04/05/2011
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Postado em: 11/11/2010
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Pode ser. Acredito, porém, que a grande flexibilidade da mente chinesa deu aqui também a sua contribuição, atualizando um formato que de outra forma cairia no esquecimento. Já que, embora mantendo as histórias clássicas (Romance dos Três Reinos ou a História das dinastias Sui e Tang, por exemplo), os artistas passaram a incluir piadas e ditos irônicos nos seus comentários. Há mesmo quem insira referências totalmente alheias à cultura chinesa como alusões a passagens dos filmes de Harry Potter. E o resultado me parece excelente: conseguiram fortalecer a sua tradição cultural sem dar as costas ao mundo em que todos vivemos.
Postado em: 21/10/2010
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Há algo de expecional no ambiente da China de hoje. Se, por um lado, existe a noção de que tudo é possível, por outro, há um forte sentimento de que as pessoas não estão preparadas para a avalanche de mudanças em curso. Uma dualidade que muitas vezes causa dificuldades na compreensão e leitura do momento presente.
Um fato, porém, é bastante claro. Embora perplexos perante a complexidade da situação, os chineses desejam acelerar ainda mais o ritmo das mudanças. Querem o melhor do mundo desenvolvido e rapidamente. « Como chegar lá » é o tema de muitas e variadas discussões no país. A mais recente personalidade a entrar no debate é um bem-sucedido homem de negócios que publicou há alguns meses um livro intitulado « Crítica ao pensamento do povo chinês ». Além de vender 20 mil cópias em pouco tempo, o título já mereceu diversos textos nos jornais. O que prova que Chu Yu tocou num ponto altamente sensível e atual.
O seu objetivo, disse numa entevista ao « China Daily », é inspirar os leitores a seguirem a forma correta de pensar para assim tornar a China um país mais forte. Segundo Chu, o pensamento chinês é fundamentalmente impreciso, desordenado e rígido. Características que acabam por gerar « cegueira e reveses ». No livro, Chu escreve que existe uma enorme discrepância entre o discurso da maioria dos chineses e a sua verdadeira forma de agir. Uma falta de coerência que na opinião do empresário-autor ocorre devido a forma errônea de pensar.
A solução encontrada por Chu para o problema não é contudo nova. Educação, escreve, é a resposta adequada. Por isso defende que o sistema educacional chinês deve ser reformulado para poder engendrar uma nova geração de pessoas que sejam « cidadãos de qualidade », capazes de mostrar o seu talento criativo e inovador. Só assim, acredita Chu, cada um poderá assumir a sua parte no processo de reforma da nação chinesa. « A escola atual está matando o talento e a criatividade dos jovens », alertou.
Postado em: 09/09/2010
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A política do filho único e o trabalho migrante são os temas que mais preocupam os jovens chineses. Esta é conclusão do australiano Adrian Fisk que viajou 12.500 quilômetros na China fotografando pessoas entre os 16 e os 30 anos. O resultado está na internet (veja em adrianfisk.photoshelter) e tem sido bastante comentado no ciberespaço chinês, segundo revelou uma reportagem no "Global Times".
O fotógrafo pediu que cada pessoa retratada escrevesse numa cartolina branca a sua mensagem e depois a segurasse. Além de serem um interessante álbum de imagens da China de hoje, as fotos mostram a perplexidade dos indivíduos frente aos desafios atuais e revelam uma clara distinção entre quem está na cidade e quem está no campo.
Adrian Fisk diz ter aprendido algumas coisas que não sabia acerca da China. Sobretudo impressionou-o o sentimento de autoconfiança que encontrou nos jovens. Vários fotografados quiseram deixar escrito que não querem que seja o Ocidente a dizer-lhes o que podem ou não fazer. Por outro lado, diversas pessoas expressaram o desejo de um melhor entendimento entre a China e o mundo ocidental.
As imagens mostram ainda a dificuldade que os jovens chineses parecem ter em afirmar a sua identidade e independência pessoais; sobretudo se isso significar um confronto aberto com a sociedade. Como exemplo, confira no site a frase do cabeleireiro de Gansu, com um penteado pouco convencional, que escreveu: "Aos olhos dos adultos eu sou uma pessoa má na sociedade, mas, na verdade, sou bastante obediente".
Postado em: 10/08/2010
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Com 400 milhões de internautas, a China nessa área provavelmente não pode ser comparada a nenhum outro país. Para se ter uma idéia, o Brasil, onde a web também tem crescido a um bom ritmo, tem 67,5 milhões de pessoas com acesso à web.
Esse fabuloso mundo virtual chinês, que está apenas no seu início, nos proporciona, entre outras possibilidades, a de se fazer uma viagem pelo mundo dos jovens na China. Para eles, sobretudo aqueles que estão à margem do grande crescimento econômico, a internet se transformou na plataforma preferida para alcançar notoriedade e se distinguir entre os outros milhões que estão também tentando encontrar uma forma lucrativa de ganhar a vida. Muitos são hoje candidatos a celebridades da web, pessoas que, de um dia para outro, por terem colocado fotos e comentários considerados audaciosos em fóruns de conversa online, passam a ser alvo da atenção de milhões de internautas. E, por isso, ganham também espaço nos jornais e na televisão.
Como já houve alguns casos de “sucesso” (as hoje famosas Furong Jiejie e Feng Jiejie são dois exemplos muito conhecidos no país), a promoção dessas novas celebridades também virou negócio e ganhou um nome “tui shou” (que acho não ficaria muito mal-traduzido como ‘empurrãozinho’). Segundo o “China Daily”, custa algo em torno de 3.0000 RMB deixar em 3 mil fóruns online comentários positivos sobre uma pessoa e, potencialmente, criar uma nova “sensação” na web e, por extensão, no país. E, diz o jornal, o negócio está correndo a pleno vapor.
E, como um negócio puxa outro, novos empreendedores estão oferecendo outros produtos como, por exemplo, a eliminação de comentários negativos que aparecem nos mesmos fóruns online sobre determinados produtos ou empresas. Situação que, claro, preocupa quem trabalha na área de defesa do consumidor.
Mais recentemente, os ‘chat rooms’ foram a plataforma utilizada pelos grevistas das fábricas da Honda para troca de informação e negociação entre si. Ao contrário das celebridades, eles usaram a tecnologia para conseguir maiores salários e melhores condições trabalho.
Numa sociedade extremamente competitiva como a chinesa, a internet aparece como uma maneira muito eficiente para se atingir rapidamente os objetivos. Uma nova geração com certeza.
Postado em: 12/07/2010
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A minha curta experiência de China não me permite grandes vôos. Mesmo assim sou tentada a dizer que temos alguns pontos em comum com os chineses. Talvez o mais saliente seja a descontração e informalidade do povo. Verdadeiros brasileirismos, diríamos nós.
Há, porém, diferenças enormes entre as nossas culturas. A importância atribuída ao talento é uma delas. Para nós, é uma espécie de “fé” na nossa capacidade de improvisação e inovação. Para os chineses não. Para eles, o grande valor está no 努力 (nǔlì). No empenho e esforço que se faz para se conseguir alcançar determinado objetivo.
Essa idéia ocorreu-me, outro dia, durante a minha aula de chinês. A lição corria normalmente. Meu colega e eu repetíamos as palavras novas da lição e, passados alguns minutos, fomos instados pela professora a construir frases utilizando as expressões recém-adquiridas. Foi aí que o tema apareceu. Tentando produzir uma oração digna de seu nome, com muita dificuldade, disse que um dos pré-requisitos para o sucesso na profissão era certamente o talento do indivíduo. Sem uma aptidão natural para o ofício, era muito pouco provável que o profissional alguma vez alcançasse êxito no seu trabalho. Disse isso sem pensar. Foi uma daquelas frases automáticas que temos “em estoque” na cabeça e que foi proferida sem maior atenção.
Contudo, ao terminar de falar reparei que a expressão da professora tinha mudado. Ela parecia ter agora certo ar de incredulidade estampado no rosto. A isso rebati mostrando também o meu estranhamento à volta de um tema que eu julgava totalmente pacífico. Mas a resposta dela veio clara e triunfante: “Para ser bem-sucedido basta aplicar-se com tenacidade. Nuli, nuli”, repetiu ela.
Terminada a aula, o assunto ficou borbulhando na minha mente. Fiquei pensando em como a nossa cultura privilegia a “sorte” do talento. E como no Brasil, ao contrário de na China, vemos o trabalho metódico apenas como um último recurso para aqueles que não tiveram a “bênção” de nascerem talentosos.
Não desdenho os indivíduos notáveis, mas acho que ganharíamos muito se aprendêssemos com os chineses a sermos mais aplicados.
Postado em: 18/06/2010
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