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Uma China, mil traduções

Dora Ribeiro, Poetisa e Embaixatriz do Brasil em Pequim

 

A política do filho único e o trabalho migrante são os temas que mais preocupam os jovens chineses. Esta é conclusão do australiano Adrian Fisk que viajou 12.500 quilômetros na China fotografando pessoas entre os 16 e os 30 anos. O resultado está na internet (veja em adrianfisk.photoshelter) e tem sido bastante comentado no ciberespaço chinês, segundo revelou uma reportagem no "Global Times".

O fotógrafo pediu que cada pessoa retratada escrevesse numa cartolina branca a sua mensagem e depois a segurasse. Além de serem um interessante álbum de imagens da China de hoje, as fotos mostram a perplexidade dos indivíduos frente aos desafios atuais e revelam uma clara distinção entre quem está na cidade e quem está no campo.

Adrian Fisk diz ter aprendido algumas coisas que não sabia acerca da China. Sobretudo impressionou-o o sentimento de autoconfiança que encontrou nos jovens. Vários fotografados quiseram deixar escrito que não querem que seja o Ocidente a dizer-lhes o que podem ou não fazer. Por outro lado, diversas pessoas expressaram o desejo de um melhor entendimento entre a China e o mundo ocidental.

As imagens mostram ainda a dificuldade que os jovens chineses parecem ter em afirmar a sua identidade e independência pessoais; sobretudo se isso significar um confronto aberto com a sociedade. Como exemplo, confira no site a frase do cabeleireiro de Gansu, com um penteado pouco convencional, que escreveu: "Aos olhos dos adultos eu sou uma pessoa má na sociedade, mas, na verdade, sou bastante obediente".

Postado em: 10/08/2010

Com 400 milhões de internautas, a China nessa área provavelmente não pode ser comparada a nenhum outro país. Para se ter uma idéia, o Brasil, onde a web também tem crescido a um bom ritmo, tem 67,5 milhões de pessoas com acesso à web.

Esse fabuloso mundo virtual chinês, que está apenas no seu início, nos proporciona, entre outras possibilidades, a de se fazer uma viagem pelo mundo dos jovens na China. Para eles, sobretudo aqueles que estão à margem do grande crescimento econômico, a internet se transformou na plataforma preferida para alcançar notoriedade e se distinguir entre os outros milhões que estão também tentando encontrar uma forma lucrativa de ganhar a vida. Muitos são hoje candidatos a celebridades da web, pessoas que, de um dia para outro, por terem colocado fotos e comentários considerados audaciosos em fóruns de conversa online, passam a ser alvo da atenção de milhões de internautas. E, por isso, ganham também espaço nos jornais e na televisão.

Como já houve alguns casos de “sucesso” (as hoje famosas Furong Jiejie e Feng Jiejie são dois exemplos muito conhecidos no país), a promoção dessas novas celebridades também virou negócio e ganhou um nome “tui shou” (que acho não ficaria muito mal-traduzido como ‘empurrãozinho’). Segundo o “China Daily”, custa algo em torno de 3.0000 RMB deixar em 3 mil fóruns online comentários positivos sobre uma pessoa e, potencialmente, criar uma nova “sensação” na web e, por extensão, no país. E, diz o jornal, o negócio está correndo a pleno vapor.

E, como um negócio puxa outro, novos empreendedores estão oferecendo outros produtos como, por exemplo, a eliminação de comentários negativos que aparecem nos mesmos fóruns online sobre determinados produtos ou empresas. Situação que, claro, preocupa quem trabalha na área de defesa do consumidor.

Mais recentemente, os ‘chat rooms’ foram a plataforma utilizada pelos grevistas das fábricas da Honda para troca de informação e negociação entre si. Ao contrário das celebridades, eles usaram a tecnologia para conseguir maiores salários e melhores condições trabalho.

Numa sociedade extremamente competitiva como a chinesa, a internet aparece como uma maneira muito eficiente para se atingir rapidamente os objetivos. Uma nova geração com certeza.

Postado em: 12/07/2010

 

A minha curta experiência de China não me permite grandes vôos. Mesmo assim sou tentada a dizer que temos alguns pontos em comum com os chineses. Talvez o mais saliente seja a descontração e informalidade do povo. Verdadeiros brasileirismos, diríamos nós.

Há, porém, diferenças enormes entre as nossas culturas. A importância atribuída ao talento é uma delas. Para nós, é uma espécie de “fé” na nossa capacidade de improvisação e inovação. Para os chineses não. Para eles, o grande valor está no 努力 (nǔlì). No empenho e esforço que se faz para se conseguir alcançar determinado objetivo.

Essa idéia ocorreu-me, outro dia, durante a minha aula de chinês. A lição corria normalmente. Meu colega e eu repetíamos as palavras novas da lição e, passados alguns minutos, fomos instados pela professora a construir frases utilizando as expressões recém-adquiridas. Foi aí que o tema apareceu. Tentando produzir uma oração digna de seu nome, com muita dificuldade, disse que um dos pré-requisitos para o sucesso na profissão era certamente o talento do indivíduo. Sem uma aptidão natural para o ofício, era muito pouco provável que o profissional alguma vez alcançasse êxito no seu trabalho. Disse isso sem pensar. Foi uma daquelas frases automáticas que temos “em estoque” na cabeça e que foi proferida sem maior atenção.

Contudo, ao terminar de falar reparei que a expressão da professora tinha mudado. Ela parecia ter agora certo ar de incredulidade estampado no rosto. A isso rebati mostrando também o meu estranhamento à volta de um tema que eu julgava totalmente pacífico. Mas a resposta dela veio clara e triunfante: “Para ser bem-sucedido basta aplicar-se com tenacidade. Nuli, nuli”, repetiu ela.

Terminada a aula, o assunto ficou borbulhando na minha mente. Fiquei pensando em como a nossa cultura privilegia a “sorte” do talento. E como no Brasil, ao contrário de na China, vemos o trabalho metódico apenas como um último recurso para aqueles que não tiveram a “bênção” de nascerem talentosos.

Não desdenho os indivíduos notáveis, mas acho que ganharíamos muito se aprendêssemos com os chineses a sermos mais aplicados.

Postado em: 18/06/2010